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Revista da Folha publica matéria sobre o Campeonato Paulista de Trekking

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Revista da Folha publica matéria sobre o Campeonato Paulista de Trekking

Faça chuva ou faça sol, os praticantes de enduro sobre ‘pernas’ deixam a cidade em busca de desafio

Pé na trilha

A previsão da meteorologia era desencorajadora. Domingo nublado, com chuva e temperatura na casa dos 21ºC. Clima perfeito para curtir um dia de preguiça debaixo do edredom. Não para um grupo de 282 pessoas que, na madrugada fria, deixou os confortos da cidade para trás. A motivação era caminhar no meio do mato, às vezes, com água pelos joelhos e sem medo de enfiar, literalmente, o pé na lama.

Para explicar a paixão dos praticantes de enduro a pé, uma modalidade que conta com 7.000 adeptos regulares em todo o país, a Revista foi até o município de Piedade, a 99 km da capital, acompanhar a terceira das 12 etapas do Campeonato Paulista de Trekking deste ano (o calendário está no site www.enduroape.com.br).

O esporte de aventura começou a se difundir por aqui nos anos 90 e, hoje, somente no Estado, são dez circuitos diferentes de provas, com etapas que mobilizam mensalmente cerca de 1.400 participantes.

“É mais difícil do que o Iron Man”, diz o coordenador de marketing e triatleta Eloi Catto, 29, se referindo à conhecida prova de triatlo que testa seus participantes até o limite máximo da resistência física. “Aqui o ritmo muda toda hora e é preciso controlar muita coisa ao mesmo tempo, do número de passos à trilha que você tem que seguir. Não é brincadeira.”

Junto com a estudante Thais Pires, 26, a comerciante Leda Valverde, 25, a analista de comunicação Fabiana Sudylowski, 27, e a coordenadora de eventos Ligia Vendrami, 27, Eloi integra a equipe Pé na Lama, que participava pela primeira vez de uma prova de enduro a pé. A única experiência que o grupo tinha até então era o curso feito, duas semanas antes, no parque Ibirapuera, onde foram ensinadas noções de navegação e as principais regras do trekking.

Para tentar cumprir o itinerário no tempo determinado pela organização, cada um dos cinco membros da Pé na Lama ficou encarregado de uma tarefa. Eloi e Ligia foram eleitos os navegadores. O trabalho deles era ler e interpretar as orientações da planilha recebida antes da prova e dizer à equipe qual direção seguir. Thais era a “dona tempo”. Quem tinha que medir os minutos e os segundos que o time levava para percorrer o caminho.

Leda e Fabiana ficaram com a contagem dos passos. Isso mesmo, passaram todo o trajeto contando cada passada, ao longo de todos os trechos. Quando o navegador informava, por exemplo, que era preciso caminhar 125 m adiante de determinado marco, a equipe usava como medida dois passos de Leda, que, juntos, medem 1,25 m. Ou seja, eram necessários 200 passos de Leda para chegar ao local sinalizado neste caso.

Uma das principais dificuldades de um iniciante nesse tipo de esporte é, justamente, manter um passo regular, já que o itinerário tem subidas e decidas. Às vezes, é necessário caminhar mais rápido ou desacelerar o passo para se manter no tempo ideal. Outra dificuldade é a distração. “É complicado manter a atenção na contagem de passos com as pessoas falando à sua volta ou tendo que caminhar em uma trilha cheia de obstáculos”, conta Leda.

No domingo, 16 de março, a competição reuniu 71 grupos, divididos entre iniciantes e graduados. Os primeiros tinham de percorrer um trajeto de 6.860 m em 2h34min. A meta dos segundos era andar 9.850 m em 2h58min10s.

A largada da prova foi em uma pousada na área rural de Piedade, numa região repleta de aclives. Em volta, algumas casas, pequenas plantações e muito mato. Às 9h em ponto, as equipes começaram a partir em intervalos de dois minutos.

O enduro a pé não é uma corrida. Quem chega adiantado é penalizado. Cada segundo a menos rende dois pontos perdidos para a equipe. Os atrasados também perdem pontos. Neste caso, é abatido um ponto por segundo. Vence a prova quem, ao final do percurso, tiver perdido menos pontos.

Na saída, as equipes recebiam um chip que registrava o tempo do grupo em diversos postos de controle, espalhados ao longo do itinerário. “O segredo aqui é regularidade”, explica José Carlos Dias, o veterano Zezo, 60, praticante de enduro desde 2003. Neste quesito, os graduados, claro, levam vantagem. Como a “elite” do enduro a pé, eles participam de todas as provas, estão sempre uniformizados e são os que mais investem em equipamentos.

O administrador de empresas Fábio Dall’Antonia, 37 , por exemplo, gastou cerca de R$ 800 com o aparelho de navegação que orienta seu time. “Como sou um praticante assíduo, valeu a pena o gasto”, conta o líder da equipe de graduados Mabuya, praticante do esporte há oito anos.

Entre deslocamento, uniformes e inscrições nas provas, uma equipe chega a gastar cerca de

R$ 600 em uma etapa, dependendo do número de participantes. Como o enduro a pé é um esporte em que o atleta paga para competir, o nível socioeconômico de quem o pratica é mais elevado. Há médicos, advogados, engenheiros e empresários entre os praticantes. Gente que leva tão a sério o esporte que treina semanalmente e busca bom desempenho em todas as provas.

Conflito na mata
Mais do que tecnologia ou treinamento árduo, no enduro a pé o que faz a diferença é montar bem uma equipe. “Sai em vantagem quem tem um bom contador de passos. Alguém que tenha uma passada precisa e que consiga manter o ritmo”, revela Zezo. Na prova de Piedade, ele faz dupla com o filho, Felipe Lopreto, 31 -o resto da equipe dessa vez não pode ir.

O entrosamento com o filho é natural, mas eles não estão livres de eventuais desentendimentos. “Já discuti com ele a ponto de jogar a planilha com todas as orientações na água. Ao final da prova, felizmente, já estava tudo resolvido”, lembra Zezo.

Pequenas discussões dentro da equipe são comuns. Em geral, as divergências começam quando a equipe está atrasada demais ou perdida. Foi o que aconteceu com os graduados da Oniguiris, meia hora depois da largada em Piedade.

Formado por membros e “agregados” da família do analista de sistemas Valdovino Gatura, 49, de São Paulo, o time pegou uma trilha errada logo no início do trajeto. “Os passos não batem com as indicações da planilha”, apontava Marcelo Gatura, 20, o primogênito da família que assumiu a tarefa de navegador da equipe.

Foi preciso voltar ao início do trecho e contar tudo de novo. O revés foi ainda mais pesado para Sidney Madeira, 52, amigo dos Gatura. “Eu sou o mula”, brincava ele, enquanto apontava para a mochila nas costas, carregada com água e comida. “O jeito é apressar o passo e tentar não ficar muito para trás”, conformou-se, apesar dos 4 kg de contrapeso. Em alguns pontos do trajeto, especialmente em aclives e curvas, o “mula” ficou para trás. Alguém pergunta: “Cadê o Sidney?” A equipe pára por alguns segundos e logo ele aparece. Diligente, ia logo perguntando, bem-humorado: “Alguém quer água?”

Os obstáculos não são poucos. Na planilha, além das orientações de para onde seguir, estão representados pequenos sinais gráficos que indicam árvores, pedras, cercas, tocos, cactos, bambus e até cupinzeiros. A Oniguiris encontrou, pelo caminho, árvores caídas, galhos e trilhas com muita lama, algumas delas com água acima dos joelhos. De tanto “vira aqui”, “dobra ali”, “abaixa aí na frente!”, as agruras acabam virando piada no meio da mata.

“Vamos, vamos, anda mais rápido”, cobra um concorrente de uma outra equipe que está logo atrás da Oniguiris. No mato fechado e com pressa, ninguém se virou para ver quem estava falando. Aproveitando-se do anonimato, a voz continuou, fanfarrona: “Se não der para andar, rola”. Em uma trilha, próxima a um córrego, outro membro da equipe replica: “Já rolei”.

Com uma hora e meia de caminhada, a Oniguiris pára na metade do trajeto para descansar. É hora de explicar o que significa o nome da equipe. Oniguiri é um tipo de sushi. Os “sushis” chegaram a criar um mascote: uma tartaruga comendo com hashis, os palitinhos japoneses. A parada é no posto onde a organização da prova disponibiliza água e frutas e dá aos participantes a oportunidade de descansar por 12 minutos. Quem está atrasado demais pega uma banana, um caqui e segue em frente. Quem está dentro do tempo aproveita para esticar as pernas.

Os iniciantes da Pé na Lama estão atrasados. “Provavelmente se perderam no meio do caminho”, diz um membro da organização enquanto olha no relógio de pulso. Ao lado, uma cena no mínimo insólita. Do meio da trilha, no mato, surge um pequeno cão e, logo atrás dele, um casal e um menino.

Trata-se da equipe Vírus da Terra, composta pela família Airoldi, de São Paulo. Mel, a vira-lata de dois anos, é a líder do grupo. “Ela participa de todas as provas com a gente. Quando cansamos ou diminuímos o ritmo, ela late e nos incentiva a seguir em frente”, conta a professora Alexandra Airoldi, 30, dona da cadela.

Erros e atrasos
São 12h10 quando a Pé na Lama finalmente chega ao meio do caminho. Até ali, o grupo percorreu 13 trechos de diferentes distâncias, e Leda, a contadora de passos, já acumulava 6.696 passos. Visivelmente cansada, ela se anima diante das frutas à disposição dos participantes: “Ai, que delícia, tem caqui”, comemora. Após uma pausa breve -o atraso reduziu o tempo de descanso- o grupo segue em frente.

Já no trecho seguinte, mais dúvidas na interpretação da planilha. “A gente está rodando que nem peru”, diz Thais, a controladora do tempo da Pé na Lama. “Temos que entrar à esquerda na trilha”, rebate Ligia, a navegadora. Como é comum ocorrer no enduro a pé, as indicações da planilha não coincidem com a distância em passos percorrida até então. O caminho está errado. É necessário voltar. “Estamos 12 minutos atrasados”, sentencia Thais. Como é preciso acelerar o ritmo, haja fôlego.

Quando a Pé na Lama finalmente alcança os últimos 153 m do percurso, a reportagem se arrasta lentamente a pelo menos 600 m de distância do grupo. “Vamos lá, pessoal, vocês não disseram que iriam acompanhar a gente?” , grita Ligia, de longe, provocativa. A simples idéia de andar mais rápido faz doer os pés, as pernas e as costas. O bloco pesa. A caneta pesa. O tênis molhado e cheio de areia também.

No totem amarelo que demarca a chegada, abraços e comemoração. É hora de tirar a roupa úmida e enlameada e descansar enquanto a organização da prova calcula os pontos perdidos por cada equipe. Feita a soma, a Pé na Lama fica com menos 7.714 e ganha o antepenúltimo lugar na prova. “Registramos o tempo mais de uma vez em um mesmo posto de controle e nos atrasamos em diversos pontos do trajeto”, explica a navegadora Ligia, tentando justificar o desempenho do time.

Vencedores e perdedores
No outro extremo, a equipe vencedora da categoria, a Teiú, de Piedade, foi penalizada com apenas 208 pontos. Participar de uma prova praticamente em casa não foi propriamente uma vantagem competitiva para a Teiú -o nome é em homenagem a um lagarto muito comum na região. Para o líder da equipe, o professor de matemática Thiago Henrique Moraes, 23, a vitória é resultado do comprometimento do grupo. “A gente gosta de estar em contato com a natureza, mas também adora o desafio de competir.”

Para quem chegou em último, a prova foi o menos importante. “Adoro caminhar e o que me move não é a disputa, mas, sim, a oportunidade de fazer um programa que alivia o estresse, e me coloca em contato com a natureza. Além de ser um ótimo programa em família”, diz a corretora Luana Richter, 28, que formou uma equipe de dois, com o tio Carlos Richter, 43. A dupla perdeu 9.017 pontos. Mesmo na lanterna, eles traduzem o espírito que move os praticantes de trekking. Em um domingo chuvoso, voltaram para São Paulo sem troféu. Mas com energia para encarar outra competição. A da vida urbana.

por Leoleli Camargo
fotos: Jefferson Coppola

 

 

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